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Cabeca de Cuia

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  O Projeto

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 Genuinamente piauiense

 Vive e vagueia nas águas do rio Parnaíba, ou em sua confluência com o Poti. Às vezes, se bem que raramente, vai até a outras cidades das margens do "Velho Monge". Todavia, seu setor predileto é sempre nas regiões das proximidades de Teresina.

          Sobre sua origem, sua estória, já alguns estudiosos de nosso folclore falaram - Câmara Cascudo, Vale Cabral, João Ferry, Nogueira Tapety, Vítor Gonçalves Neto...

          E os velhos pescadores das águas do Parnaíba e do Poti, homens de categoria abalizada no assunto, contam para quem quiser ouvir, tintim por tintim, como tal caso se passou. Narram tudo e, piamente, acreditam na estória.

          O certo é que, deixando à parte certos pormenores de uns e de outros dos muitos que o relatam, entremos de cheio no ponto capital do fato que nos interessa.

          Era uma vez, como sempre se iniciam tais estórias. Era uma vez um rapaz da chamada Vila do Poti (hoje apenas bairro do Poti Velho) - aquela mesma vila que nascera antes de Teresina ao menos sonhar em ser gente em matéria de cidade. Era uma vez aquele rapaz que morava com sua mãe viúva e pobre de não ter de seu um couro para morrer em cima. Isto antes de Teresina sequer pensar em Conselheiro Saraiva que naqueles tempos ainda era menino praticando estripulias e travessuras na velha Bahia com h.

          Quando certo e determinado dia, o dito rapaz (de nome Crispim) foi pescar nas águas do Poti. Já estava com seu belo e bom pari preparado. Deixe que naquele dia foi dum azar sem nome. Por mais que forcejasse, não conseguia pegar sequer uma por mais fosse pequena piaba.

          Voltou à casa fulo de raiva e de fome - duas coisas que misturadas nunca que dão bom resultado, visto a segunda atiçar a primeira para qualquer ato desagradável. Chegou em casa e foi logo botando para cima uma briga tremenda com a velha sua mãe. Aconteceu que esta havia guardado para ele um prato de feijão com apenas de suporte um corredor de boi. Além do mais, o dito corredor limpo como Deus quer as almas. Não tinha de carne um naco. Então, passou ele a espancar a pobre coitada velha, batendo-lhe o corredor na cabeça. Depois, emborcou o corredor sobre o prato e, ao invés de tutano, escorreu mais foi aquele sangue grosso e vivo.

          Aí a velha, tonta e cambaleando de tão desadorada dor, saiu do terreiro, ajoelhou-se na areia quente e, de mãos postas, passou a amaldiçoar o filho. E as pregas pegaram, mesmo porque era meio-dia em ponto, hora em que os anjos estão cantando salmos e dizendo amém lá no patamar brilhoso do terreiro do Céu.

          Pois ela dissera que ele havia de se transformar num mostro; que ficaria penando para todo o sempre, eternamente, da terra para as águas.

          De repente, num átimo, o rapaz enlouqueceu. Perdeu a bola por completo. Ficou mais foi mesmo doido varrido. Aí correu sem sentido e gritando que era um infeliz e amaldiçoado. E atirou-se às águas do Parnaíba. Morreu afogado. E o interessante de tudo foi que ninguém conseguiu encontrar seu cadáver. Na mesma hora, a velha também se fora para o outro lado da vida, que aquelas pancadas sem temo do corredor não eram para menos. Deu uma sapituca, esticou as canelas, olhou para o dedo-grande do pé e fez a viagem-sem-frito. Morreu.

          Passa os seis meses de enchentes nas águas, matando gente afogada, tanto virando vapores, balsas, canoas e outras embarcações, como de qualquer maneira. Acredita-se que, por esta temporada, a gente chegando na beira do rio, às horas-mortas da noite e três vezes gritando: ô,ô,ô,... Cabeça-de-Cuia!!! ele aparece. Mas diz que vem com mil e uma marmotas de assombrações. Aliás, vem calmo, julgando ser sua genitora que o chama. Quando observa que não é a velha, pratica as mais horripilantes fantasias. Aquilo ele vem só mesmo por saber que a alma da velha também vive penando no mundo e só se salva quando ele deixar de penar. Mesmo assim, quer ver sua pobre mãe sofrendo por sua causa. É que mãe, para melhor definição, só se pode mesmo dizer que é mãe.

          Os outros seis meses ele passa em terra, também praticando fantasias.

          Pois é assim. E tem mais: o Cabeça-de-Cuia só deixará de penar no mundo quando devorar sete mulheres virgens de nome Maria. E diz que até o presente não conseguiu consumir uma sequer.

 

 

 

Cabeça-de-Cuia

Letra e música: Pedro Silva

 

Remeiro valente do rio Parnaíba

Que rema a canoa pra baixo e pra riba

Que brinca com a morte e tem pouca sorte

Desprezando a vida contente a lidar

 

Remeiro valente lá do meu sertão

Que afronta a torrente e sorri do trovão

Que rompe o balseiro no mês de janeiro

Nas grandes enchentes que descem pro mar

 

Já viste o cabeça-se-cuia apontar

No meio do rio e depois afundar?

É o filho maldito por pragas aflito

Castigo tremendo que a lenda sagrou

 

Se vires um dia a cujuba surgir

No meu do rio e depois imergir

Não é ilusão, é assombração

A alma maldita, Crispim pescador 

 

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