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Lançamento de livro em homenagem ao escritor piauiense
O. G. Rego de Carvalho
O jornalista Kenard Kruel, presidente do Sindicato dos Escritores no Piauí, lançará às 15 horas do próximo dia 14 (terça-feira), no Instituto Dom Barreto, o livro O. G. Rêgo de Carvalho- Fortuna Crítica, em homenagem aos 40 anos de publicação de Rio Subterrâneo, a mais importante obra do nosso maior romancista - o oeirense O. G. Rêgo de Carvalho.
O livro O. G. Rêgo de Carvalho - Fortuna Crítica já estava pronto há três anos mas somente agora, com a aprovação pela Lei A. Tito Filho, da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, e o patrocínio da Gráfica e Editora Halley, o mesmo pode ser editado.
O livro O. G. Rêgo de Carvalho - Fortuna Crítica se divide em duas partes. Na primeira, o jornalista Kenard Kruel fez um longo estudo sobre a vida e as obras de O. G. Rêgo de Carvalho, especialmente Ulisses Entre o Amor e a Morte, Rio Subterrâneo e Somos Todos Inocentes. Na segunda, foram reunidos artigos críticos dos maiores nomes da crítica internacional, como David Lord e Gilbert Chaudanne, da crítica nacional, como Otávio de Faria, Sebastião G. Assumpção, Igor Achatkin, Hélio Pólvora, Pessoa de Morais, Mário da Silva Brito, José Afrânio Moreira Duarte, Gil Alves dos Santos, Luís Paula Freitas, J. Santos Stockler, Pedro Marques, Abdias Lima, Alcântara Silveira, Campomizzi Filho, Cial Brito, Antônio Carlos Vilaça, Bruna Becherucci, Roosevelt da Silveira, João de Sousa Ferraz, Torrieri Guimarães, José Edson Gomes, Osvaldo Lopes Pinto, Carlyle Martins, Enéas Athanázio, Edigar de Alencar,Vasques Filho, Euclides Marques Andrade, Neroaldo Pontes de Azevedo, Salim Miguel, Dimas Macedo, além da crítica piauiense, como Francisco Miguel de Moura, Assis Brasil, M. Paulo Nunes, Hardi Filho, Pompílio Santos, Esdras do Nascimento, Herculano Moraes, José Patrício Franco, Airton Sampaio, Cineas Santos, Renato Castelo Branco, H. Dobal, J. Ribamar Matos, Olveira Neto e A. Tito Filho.
RIO SUBTERRÂNEO
Rio Subterrâneo, o seu Confiteor, o seu testamento espiritual, foi escrito de 1962 a 1964, situando-se por volta de 1950.
Neste ano, em um passeio à cidade maranhense de Timon, com os amigos Raimundo Wall Ferraz (que viria a ser prefeito de Teresina, já falecido) e Pedro Novais Lima (escritor maranhense), ao dar umas voltas pelas margens do rio Parnaíba, de canoa, vendo passar o trem sob a ponte de ferro, um dos símbolos mais fortes da nossa Capital, inspirou-se para escrever um romance com aquele cenário, nascendo, entretanto, apenas o conto Um Passeio a Timon, inserido, em 1956, em Amor e Morte, e que seria, depois, um dos capítulos de Rio Subterrâneo.
Rio Subterrâneo, seu romance há muito sonhado, nasceu, portanto, do conto Um Passeio a Timon, e o autor dá mais detalhes: "Então, eu quis desenvolver essa história e consegui. Mas aí acontecem cousas. Um irmão meu adoece da mente. Está hospitalizado no Rio de Janeiro, e vou visitá-lo. Quando chego lá, ele fica se queixando de angústia, de mil aflições, e uma freira se aproxima de mim e diz: 'Não, meu filho, não se importe, não se preocupe com seu irmão, eles não sentem tanto'. E eu que ouvi as queixas do meu irmão, fiquei chocado com aquela afirmação da freira, de que os doentes mentais não sofriam, quando a impressão que eu tinha era de que os doentes mentais sofriam mais do que os seres normais, em dadas circunstâncias. Então eu escrevi o romance em homenagem ao meu irmão doente. Lucínio deveria ser o único sadio no romance, para observar tudo aquilo, mas terminou tendo a atmosfera doentia de um fronteiriço".
Romance de tempo psicológico, cria um mundo misterioso, habitado por criaturas deformadas e marcadas pelo medo, pela solidão, pela angústia, pelo desespero, pela neurose. Obra introspectiva, busca mergulhar fundo no mundo interior, no inconsciente e na dor de cada personagem (Lucínio, Joana, Helena, Afonsina, Hermes, Bennoni, Neusa). Lucínio é o personagem central. É comovente, doloroso. É um jovem sem infância, sem passado, sem nada. É personagem de um mundo degradado. Amor, morte e loucura são os temas básicos do romance, que começa às 18 horas de um dia e termina às 18 horas do dia seguinte.
Rio Subterrâneo foi a obra em que mais trabalhou. Nela, está por inteiro. "Tudo o que de verdadeiramente importante eu tinha dentro de mim eu externei nesse livro (...) Eu adoeci ao encerrar a última linha de Rio Subterrâneo. Com estafa física e mental, deixei o Rio e vim para Teresina descansar. Aqui, em tratamento, e com o apoio da família, consegui me recuperar. Mas todas as sensações que uma pessoa tem a caminho de um esgotamento nervoso estão descritas, com absoluta sinceridade, na minha obra. Daí porque Rio Subterrâneo é, talvez, o meu livro-filho, o meu livro mais amado por mim mesmo. Poderia ter-me casado, mas preferi romper o noivado para dedicar-me exclusivamente à literatura. Poderia ter sido Diretor do Banco do Brasil, de que era alto funcionário, se a carreira dos números e das contas não atrapalhasse o duro ofício de escrever. Poderia ter conservado a saúde e escrito mais e mais livros, se minha paixão por Rio Subterrâneo não me tivesse levado à doença e à depressão".
Carlos Drummond de Andrade, em carta a O. G. Rêgo de Carvalho, fez a seguinte observação: "Do romance (Rio Subterrâneo) tirei forte sensação de obra calcada no que o homem tem de mais dolorido e profundo, e trabalhado com aguda consciência artística. É desses livros que a gente não esquece".
Rio Subterrâneo foi publicado em 1967, em circunstância editorial lamentável - a Civilização Brasileira passava por uma das maiores crises da sua história, em virtude do conflito de sua linha de produção com a conjuntura político-social do Brasil. Resultou que Rio Subterrâneo e mais uma dezena de outros títulos foram liquidados no mercado a preço simbólico, com evidente prejuízo para o autor - que abriu mão dos direitos autorais daquela edição - e para a própria editora, informa Francisco Miguel de Moura.
- "Como a Editora Civilização Brasileira arriscou muito capital com meu Rio Subterrâneo, abri mão dos direitos autorais. Quando escrevo, penso unicamente em agradar a um leitor exigente: eu mesmo. O resultado financeiro nunca esteve nem estará nas minhas cogitações", resume O. G. Rêgo de Carvalho.
Rio Subterrâneo teve uma tiragem de 3 mil exemplares, sendo enviados para o autor apenas 20 deles, que foram apreendidos pelo chefe do SNI no Piauí, um senhor conhecido pela alcunha de Costa. Depois de mais de uma semana de idas e vindas ao seu gabinete, O. G. Rêgo de Carvalho conseguiu recuperar os livros. Ao chegar em casa, observou que um deles estava totalmente anotado. O motivo para toda essa confusão é que o dono da Editora Civilização Brasileira, Ênio Silveira, seu editor, era comunista nato e de carteirinha.
Em 1976, o artista plástico Nonato Oliveira, um dos maiores valores das artes plásticas piauienses, profundamente impressionado com a leitura de Rio Subterrâneo, pintou uma série de dez telas baseadas no romance, definindo o seu trabalho como uma experiência nova e fascinante. O primeiro capítulo, Limbo, forneceu-lhe inspiração para os três primeiros quadros da série. Nonato Oliveira diz que nunca se recuperou do impacto da leitura de Rio Subterrâneo e que o seu conceito de arte mudou a partir daquele momento.
Rio Subterrâneo já mereceu 9 edições, desde que foi publicado em 1967 pela Editora Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro.
FONTE:
Jornalista Kenard Kruel
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