Balada do Fim
Diego Mendes Sousa
Grande inspiração da existência
Musa da crença viva
invade-me agora um vazio
irreparável e nostálgico
Não foi bastante o amor
pois o canto parte sozinho
às lágrimas de sangue
Escrevo por acreditar
que o mundo é mutável
que os pássaros voam
e o destino é incerto
Mais tarde a noite é metálica
na compleição poderosa
do deserto firmamento
Abalo ao Anoitecer
Diego Mendes Sousa
Teus enfeitiçados cabelos
teu eterno céu de cristal
que faz cair o crepúsculo
que clareia a esmeralda
de teus olhos
e abre a carnosidade
de tua boca
espantam e falecem
os meus pungentes
desalinhos de ausência
e alegram meu arrebol
de amor
Ó deslumbramento estelar!
Oh cântico do sonho...
Ai cadência avermelhada
é sumiço de sombra
a penumbra perdida
no luar do esquecimento
suspiros da vida
tristeza e esperança
recatos da saudade
charmes insurgentes
é o que sempre
trazes
ao branco da solidão
e na poesia
o que sobra é puro disfarce
a engolir o nulo perdoar
do meu coração
aceso de ternura e paixão
O Clarão da Existência
Diego Mendes Sousa
Como enramar-me de felicidade
se o campo, a flor, o riso...
e o descontentamento
e a sombra do tempo
e as estrelas se assomam
sob o canto e o silêncio
sobre a vida
e a renúncia
sobre uma pluma
em relâmpagos
a luz
existir em tua ausência
na morada da minh’alma
exânime
Ai bárbaro destino
como mondar a tristeza
que me perece e me amarga
tanto...
como?
Sêmen de incêndio
Diego Mendes Sousa
na solidão mora o amor e o amor faz-se outono quando apenas amamos.
consola-me amar.
amar é procurar é perder é morrer.
todos amam e amar, é chorar: amar é minha primavera de boêmio é minha cabala é minha máscara.
amar em todas as noites só por amar.
amar eternamente amar, eu amaria a primeira mulher, sem medida, se
amar fosse
somente carne, mas amar, amar mesmo, é desespero.
é verdade, também, que amar é clarividente no beijo, no sexo, no gozo e, além disso,
amar é salivar assim como se consome a laranja, a manga, a ameixa, o figo: a mulher.
é lamber o mel na boca.
os limões são azedos e a mulher: doçura.
amar não é viver azul é sofrer azul e, às vezes, amargar em branco.
amar é provar a poesia dos dias, o engano do tempo.
amar é voar sob o céu sob a tempestade sob o manto de luz das estrelas e
cair, cair, cair, cair...
e ressuscitar na derradeira brisa.
não há pecado em amar,
amar é amar e é tudo e é nada.
e se nada é tudo, o tudo é sempre.
sempre é amar e amar é fugir.
estou perdido entre indagações, confesso.
um sopro disse-me que amar é vento.
o vento é plumbaginoso.
o amor: música: vida.
aqui, volto ao outono.
será o amor regresso ou escarlatim ou devaneio?
muitos se suicidam outros esquecem.
outros se calam e pesam.
Amar é fogo e o Amor: incêndio.
Elegia de égide
Diego Mendes Sousa
Fundo das coisas que me são fortes
como a palavra límpida
que me abisma no abismo do fado
e move-me ao teu sonho
a tua velocíssima vida
a teu carnaval em serpentinas
Traze querida toda a prontidão azul
de teu temperamento íntimo
e vem a relampejar
tuas farpas tuas fagulhas
claras
amarelas e claras
que me embevecem
e ao mesmo tempo
na prata agulha
em sulcos de poeira
fulminam-me
Leva-me
além das alamedas
ao céu de maravilhas
e tece teu sorriso
colorido em minhas horas
pálidas
Vou perder-me em vento
e cantar aos pássaros
em todas as manhãs
Estou no século vinte e um
faltar-me-á’gua e
arruina-se o planeta
e perplexo meu coração
inebria-se
Adiante existem pavores...
Encenador de fuga
Diego Mendes Sousa
Êxtase toma o corpo
e a’lma não é mais domínio?
Substância provocativa
o que existe de mais intenso?
o coração a perder-se
ou a galáxia plena
nos olhos da Musa?
Poeira neblina horizonte
o lacrimejar da fantasia
o orvalho: a tristeza do ser
Vêm as manhãs
boca e mancha
fantasma de cor
e tudo o que houver
vai
se dissolver
nas coisas perecíveis:
o cair da chuva
o evaporar das águas
Raio de emoção
toca-me em música
o início e a trova da vida
e se algo apodera a fuga
subitamente
o pensamento
levará meu aceno
e o espetáculo divino
Que bom ver um menino se transformar em homem por meio de poemas tão vivos, tão magistralmente sedutores.
Não são poemas nem vivos nem sedutores. Se quiser vir a ser um grande poeta algum dia, o melhor conselho seria: estude mais, escreva menos.